domingo, 20 de dezembro de 2009

Desventuras de Tardes Tediosas - parte X

Sarah era uma típica adolescente pouco popular. Havia apenas duas saias em seu guarda roupa, saias esta que nunca usava e que haviam sido presentes de lojas distantes demais para que fosse trocá-las. Ao lado destas, estavam apenas dois vestidos, um para as viagens pouco aguardadas até a praia e outro que havia sido obrigada a usar em alguma festividade que não se lembrava qual era. Tampouco possuía muitas blusas ou camisas, e praticamente repudiava decotes. Suas gavetas amarrotadas estavam cheias de camisetas um pouco largas com estampas interessantes. Usava sempre calças compridas e tênis, e não era apenas por ter vergonha do próprio corpo, na verdade, Sarah gostava de se vestir daquele jeito.

Portanto quando Diamantina lhe apareceu com uma saia comprida rodada e uma camisa preta que lhe caía pelo ombro apenas não gritou porque havia sido criada com boa educação. Haviam calças entre os pertences da mulher mais velhas, mas ela afirmava veementemente que nenhuma delas caberia naquele corpo estreito da menina. “Estreito?” pensou Sarah, incrédula, encarando os próprios quadris que já haviam lhe rendido dezenas de apelidos degradantes.

Vestiu aquele conjunto detestável e sentiu, mais do que nunca, a falta de um bom espelho de corpo inteiro. Não havia sequer um pequeno de mão naquela maldita casa sobre rodas, imagine um que pudesse lhe dar um vislumbre de sua pateticidade. Mergulhada na ignorância, limpou os pés enregelados em um pano de baixa qualidade que a mulher lhe passou. Enquanto cuidava de sua higiene, mesmo que ainda fosse da opinião de que um verdadeiro banho teria mais apropriado, ela ouvia os passos de Diamantina pela carroça, e o som de coisas sendo abertas e fechadas.

-Coloque isso nos pés, nunca vi pés tão delicados – reclamava ela, entregando uma sandália artesanal – Incrível que não tenha se machucado na caminhada até aqui.

Os pés de Sarah encaixaram quase que perfeitamente nos sapatos oferecidos, mas, mesmo assim, eles eram incômodos. A corda lhe raspava a pele e ameaçava abrir feridas, a sola era dura, feita de madeira. Não reclamou, supondo que aquilo seria melhor do que andar descalça. Ganhou argolas douradas para as orelhas, pulseiras de ouro e prata para os pulsos (“Finos! Finos demais! Tudo em você é fino, menina?”) e Diamantina tratou de tirar o grosso da água de seus cabelos, penteando-os com um pente esculpido em pedra.

E era vestida desta maneira, sem ter coragem de olhar para seus espectadores, que Sarah sentiu as bochechas pálidas ruborizarem-se.

-Esta apresentável, mas ainda não engana ninguém – declarou Diamantina, desviando a atenção que Dimitri estava oferecendo tão prontamente a nova aparência de Sarah.

-Não, com certeza não, mas ninguém aqui esta planejando que ela seja vista – replicou ele, mostrando o sorriso de quem sabia demais.

Diamantina balançou a cabeça, bufando. Desaprovava alguma coisa, e Hani concordava com ela, mas Dimitri ignorou a opinião dos dois, oferecendo a mão para ajudar Sarah a terminar de descer os curtos degraus. Ela apenas aceitou porque tinha que se preocupar em não pisar na saia comprida e cair.

-Acho que agora só nos veremos amanhã, magricela – disse Dimitri.

-Aleluia – falou Sarah, mostrando um careta que o fez rir baixinho.

-Ótimo, que bom que ficou feliz. Vamos, Hani, vamos deixar as mulheres sozinhas.

O par de cabelos escuros e peles morenas se despediu da garota e da senhora com toda a cortesia de um par de bandoleiros, e se afastaram na direção da carroça do pai do mais velho. Sarah os partiu se afastar, sentido o frio ao seu redor se tornar mais rigoroso e triste.

-Bem, agora só resta te fazer comer e te colocar para dormir.

Sem perguntas ou notificações mais detalhadas, Diamantina a pegou pelo pulso tilintante de pulseiras e a puxou da direção de uma tenda verde-musgo a pouco mais de 10metros da casa da mais velha. Sarah sentiu o cheiro de assado feito com carne quase estragada e batatas, e se esforçou muito para esquecer aquela refeição.





"A fogueira ficou tímida, mas ele riu um riso amargo e sem gosto. As portinholas se trancaram de súbito, mas os dois se abraçaram casualmente. Uma noz se partiu naquele silêncio, e lábios secos se crisparam." - Lenços Vermelhos




-Meu nome não é Níh;

2 comentários:

Ju disse...

Estou adorando.... parabéns!

=^.^=

Diego disse...

Espero ver essa história logo nas lojas *-*

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