segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Desventuras de Tardes Tediosas - Parte IX

Os olhos castanhos-mel de Sarah estavam arregalados enquanto ela tentava captar, de uma vez só, cada detalhe que havia para ser visto naquela casa, se é que aquilo podia ser realmente chamado de casa. No interior da carroça havia um único comôdo e nada mais, tampouco era um comôdo amplo, mas estava abarrotado de móveis e pertences que davam uma sensação de claustrofobia para qualquer pessoa normal. A luz não conseguia entrar, pois nas janelas haviam cortinas de cores escuras, e aquilo, somado ao odor de incenso, pimenta e gatos apenas piorava o enjoo que nascia na base do estômago semi-vazio de Sarah e que, cuidadosamente, tentava alcançar a boca fechada numa expressão de desgosto.

Dimitri e Hani haviam, confortavelmente, se acomodado, enquanto Sarah ainda encarava tudo aquilo surpresa.

-Não fique parada no caminho,branquinha! – exclamou Diamantina, e Sarah sentiu algo macio e firme se chocar contra a sua cabeça enquanto a mulherempurrava-a para o lado e ia para a extrema esquerda da “casa”.

Se fosse outra situação, Sarah teria se importado com a falta de polidez da senhora Diamantina, mas, como aquela era, obviamente, uma situação fora do comum, ela sesatisfez em ignorar a atitude da mulher mais velha e, com passos curtos (pois o local não lhe permitiria passos maiores) ela começou a explorar o ambiente. A porta pela qual haviam entrado estava bem próxima da parede limitante do lado esquerdo, mas isso não impediu a menina, completamente ensopada e enregelada, de caminha até ela, olhando desde o chão até o tetocom uma expressão embasbacada.

Naquele canto havia uma pequena sequência de prateleiras com pouco mais de trinta centímetros de comprimento e um palmo de profundidade, vários recipientes cilídricos de algo como porcelana ou cerâmica estavam enfileirados e, quando a garota levantou uma das tampas de madeira polida percebeu que havia todo tipo de especiaria e temperos ali. Pimenta, orégano, sal,salsinha, dentre outros. Abaixo uma pilha de pequenas toras de lenha bem cortada estavam empilhadas e seguras por uma corda feita a mão, que, momentâneamente, chamou a atenção da garota.

Acima de tudo aquilo, pendurado pelo teto, haviam três doninhaspenduradas pelo pescoço, todas mortas, uma já sem pele e salgada. Aquela visão fez o estômago da garota embrulhar ainda mais, e ela recuou, enojada. Sem ver para onde ia, seu pé descalço bateu com força em um pequeno móvel de madeira com várias gavetas e ela deixou uma exclamação, e um palavrão, escapar pelos lábios juvenis. Hani a olhou e conteve o riso, Dimitri mostrou um sorrisinho que a desagradou e Diamantina balançou a cabeça, novamente como se visse algo com a qual discordava.

Sarah tinha certeza de que estava corada, mas tentou não pensar nisso, voltando a observar os bens empilhados ali dentro. Havia um sofá coberto por uma espécie de colcha colorida no qual Dimitri eHani estavam sentados, e, diante deles, atrapalhando de maneira incompensável a movimentação, uma mesa circular centraliza e, ainda dois pufes que se esparramavam pelo chão. Acima daquilo haviam bolsas feitas à mão, todas cheias dos mais diversos pertences. Diamantina guardava lenços, saias, colares e rubis dentro daquelas bolsas, e Sarah descobriu isso ao pegar uma na mão para olhar o que tinha dentro e receber uma belíssima bronca da dona da casa.

Envergonhada, mas nem por isso inibida, Sarah recolocou a bolsa no lugar e passou entre o grupo de três no qual apenas uma pessoa falava, e falava muito e com as mãos.

-Seu pai acha que eu sou um brinquedinho, só pode! Não é porque aconteceu uma vez que vai acontecer de novo! –dizia Diamantina, aparentemente revoltada com alguma coisa que Sarah desconhecia e, naquele momento, nem queria conhecer. Era curiosa, sim, mas preferia a curiosidade automaticamente sanada, do que aquele que exigia de sua parte foco e silêncio.

Portanto continuou caminhando na direção da outra parede e, para chegar ao final, ela teve que passar por uma cortina feita de uma dezena de fios cheios de uma centena de contas feitas de todo tipo de material. Quando empurrou os fios para passar, as contas se chocaram produzindo um som musical que atraiu a atenção momentânea do trio, especialmente dos rapazes, mas que foi quase completamente ignorado pela garota.

Aquela região um pouco separada devia ter a função de um quarto, pois havia uma cama, ou melhor, algo que parecia-se muito com uma cama ali. Não havia pernas nela, e a adolescente teria jurada que a quase tábua de madeira com um colchão remendado e colchas feitas à mão estava flutuando se não tivesse visto as correntes que prendiam-na na parede. Acima da pseudo-cama uma coleção de filtros-de-sonhos estava cuidadosamente pendurado, haviam vários de todas as cores, materiais e até mesmo formatos! Sarah os observou fascinada, pois sempre gostou muito daquelesobjetos vendidos em feiras hippiesnas praças de sua cidade, mas havia um especial, que ficava acima do travesseiro, que lhe chamou a atenção de maneira especial: era formado por três finas tiras de madeira que, entrelaçadas umas nas outras formavam um triângulo isóscele com uma das pontas para cima. Na base três penas estavam penduradas, acompanhadas de pequenas pedras opacas querefletiam o olho castanho da menina.

Ainda sorrindo para a coleção deobjetos incomuns, ela caminhou atétrombar novamente com um dos móveis mais baixo de Diamantina. Este se parecia bastante com o primeiro que lhe causara dor, ia até o seu quadril e abrigava uma coleção de cinco gavetas, todas com puxadores de bronze trabalhado. No alto dela havia uma lata redonda feita de um metal grosso, a tampa estava apoiada ao lado dela e algumas coisas vazavam para fora, como se tentassem aproveitar enquanto podiam respirar.

Os objetos lhe chamaram atenção, e ela esqueceu que estava no quarto de outra pessoa, que não era sequer sua amiga ou, realmente, conhecida. Era a conhecida de dois conhecidos seus, no máximo. Mas aquilo não conteve os dedos enrugados pelo frio e pela água de irem tocar no que não deveriam. Acima de tudo estava um lenço vermelho de pura seda, que, na verdade, ela descobriu não ser exatamente um simples lenço, era comprido demais para isso, e talvez largo demais também (quase tão largo quanto seus ombros!). Abaixo dele havia coisas que ela não entendia porque estavam ali. Um envelope dobrado ao meio, uma caixinha de madeira, um anel de ouro com uma gigantesca esmeralda polida e...

Sarah aproximou a mão, tocando o metal claro que se destacava abaixo de tudo, e estava prestes a puxar a jóia, ou o que quer fosse, do fundo da caixa passos vieram na sua direção e as contas atrás dela se agitaram muito mais do que quando ela havia passado por ali.

-E agora chega de conversa! –exclamou Diamantina, puxando Sarah pelo antebraço e soltando a mão dela da caixa, que fechou num estrondo ríspido –Você esta ensopada e provavelmente faminta! E isso eu não vou permitir! – Ela empurrou as contas para abrir caminho –Vocês dois: pra fora! Eu não quero saber de dois marmanjos no mesmo lugar que uma garota, mesmo que seja uma branquela, esta se trocando. Um, dois, três! Andem logo!

E Diamantina praticamente os expulsou à pontapés de sua casa minúscula cheia de móveis nos quais Dimitri e Hani encontraram obstáculos para sair dali com rapidez suficiente. Quando a porta se fechou atrás dos dois, a mulher de seios avantajados demais olhou para a menina e a estudou por dois minutos.

-Bem, acho que vou ter que desenterrar algumas roupas para caberem em você...

Dimitri e Hani estavam embaixo do toldo diante da carroça-casa esperando que Diamantina lhes permitisse voltar para dentro.Dimitri encostara-se na parede de madeira da carroça, observando o vai e vem de pessoas que sorriam para ele e o cumprimentavam amistosas. Uma bola feita do couro de algum animal, provavelmente um porco ou um javali, girou até seus pés e ele cuidou de pegá-la e jogar de volta para a roda de meninos que havia se formado no meio do lamaçal. Hani, que estava ao seu lado, encarando o filtro-de-sonhos tridimensional que Diamantina havia confeccionado, não recebia a mesma atenção. Ninguém o cumprimentava e nenhuma bola desgovernada ia na direção de seus pés, mas, aparentemente, o rapaz ignorava o fato de ser ignorado, e continuava a cutucar o objeto que, provavelmente, era frágil demais para ele o fazê-lo.

Perderam meia hora naquela monotonia, e Hani estava quase batendo na porta quando esta se abriu e Diamantina desceu os dois degraus encostado junto à entrada.

-Foi quase impossível encontrar algo que servisse na menina, mas até que não ficou tão ruim.

E, atrás de Diamantina, surgiu uma garota completamente diferente daquela que Hani e Dimitri havia conhecido no meio da chuva. E tanto um quanto o outro rapaz precisaram de alguns instantes para reconhecê-la plenamente.

-Eu ‘to ridícula, podem dizer – falou Sarah, martirizada.

Hani não reagiu, mas Dimitri sorriu.

-Nem tanto, magrela...





"Àquela hora todos os olhos vivos estavam fechados e adormecidos, sem exceção alguma. E, enquanto a cidade silenciosa desfrutava da noite, ele estava em pé na janela, observando com olhos que poucos viam aquela lua prateada e gigantescas que, como uma mãe carinhosa mas severa, despejava seu carinho luminosos por toda a cidade calada." - Lenços Vermelhos





Meu nome não é Níh;



assistam:

http://www.youtube.com/watch?v=sk3SrRi_Mds&feature=player_embedded

4 comentários:

Ju disse...

Amei... esperando a continuação da saga...como sempre....


vc tem talento!!!

Camila disse...

*at laaast...x3*
loving it...´ll be waiting for the rest!

write fast...^^

Diego disse...

Dio mio! Posta tudo duma vez, pelo amor de Deus! HAUAHUAHAUAHAUAHAUAHUAHUA
PS: Eu vi uma referencia ao outro livro no meio do texto ou foi impressão minha? xD

gyabbo disse...

Obrigado pelo comentário! De forma alguma o tamanho do seu comentário é um problema, adoro ler comentários grandes e bem escritos.

Além disso, você escreve muito bem também, parabéns pelo blog!

Gyabbo!

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