terça-feira, 7 de julho de 2009

Desventuras de uma tarde tediosa - Parte II

-Calada – sussurrou a voz, cuidadosamente, em seu ouvido.

Era uma voz masculina e grave, que parecia nascer no meio da garganta e vir à tona de maneira gutural. Não era necessário muito esforço para perceber que o dono da voz também era o dono das mãos e dos braços que a calavam e a imobilizavam. Ele a fez erguer-se um pouco do chão, mas não o suficiente para que ficassem eretos. Ambos agachados rastejaram para trás de um caminho de arbustos que crescia nas bordas da estrada de terra e pequenas pedras na qual ela se encontrava. Uma vez por detrás das folhas ela foi obrigada a se ajoelhar com o homem ao seu lado, ainda com a mão sobre sua boca e o braço passando por debaixo de seus seios. Ele a detinha com menos força, atento ao observar por entre as pequenas e numerosas folhas o caminho no qual estava há pouco.

Curiosa como apenas uma adolescente é capaz de ser, mesmo que numa situação de perigo, ela se esforçou para superar a barreira natural, e ver o que ele via. Após pouco mais de dois minutos um grupo se aproximou do exato lugar onde ela havia despencado de joelhos. Dez homens formavam-no, um sobre um cavalo e todos os outros a pé. Chapéus semelhantes àqueles usados por volta do século XV cobriam cabeças nas quais perucas brancas e antiquadas encontravam residências. O homem sobre o cavalo, além de pomposo e uma expressão de absoluto nojo em relação a tudo que o cercava carregava uma estranha bandeira que ela nunca havia visto antes. Com franjas douradas nas bordas, e dividida ao meio pelas cores vermelho e preto, havia um brasão ao centro no qual duas espadas renascentistas cruzavam-se, uma gigantesca água estava pousada em suas lâminas, uma coroa em sua cabeça e uma estranha e assustadora expressão nos pequenos olhos bordados em linho e algodão.

Todos os casacos vermelhos com botões negros levavam o mesmo brasão, assim como os chapéus e as espadas que encontravam-se nas cinturas dos soldados. Eles marchavam uniformemente carregando estranhas armas, semelhantes a espingardas. Apenas quando eles se afastaram e o som dos cascos do cavalo batendo nas pedras e na terra molhada tornou-se distante e imperceptível quando um farfalhar de folhas, que o homem ergueu-a de trás dos arbustos.

-Fique quieta só mais um pouco – ele falou, sua voz encontrava-se em um tom extremamente baixo e ele guiava-a de costas para longe do vilarejo.

Após cerca de dez passos a garota que encontrava-se praticamente de pijamas notou que árvores começaram a surgir ao seu redor, eram dezenas dela se não demorou para que um verdadeiro bosque a cercasse. As copas das árvores eram tão grandes e densas que a chuva não conseguia vencê-las, e caia como um chuvisco ocasional no chão coberto de folhas mortas e amarronzadas. O homem de face desconhecida a soltou repentinamente. A perda de apoio fez com que ela cambaleasse e quase caísse sentada no chão macio. Seus dedos do pé, agora lilases, estavam imundos com a lama e fragmentos das folhas mortas, a visão lhe causou uma pequena onda de ânsia. Balançou a cabeça, agitando os longos cabelos encharcados e espalhando água para todos os lados, como um cachorro extremamente peludo após o banho.

Ergueu a cabeça para ver quem que havia imobilizado-a e, aparentemente, arrancado-a de uma situação complicada. Surpreendeu-se imensamente ao notar que o homem que encontrava-se há cinco passos de distância aparentava ter cerca de vinte anos e utilizava roupas curiosas e ultrapassadas. Quer dizer, ele usava mangas bufantes em uma camisa de linho barato, haviam várias pulseiras de couro enroladas no pulso um pouco magro, as calças verde musgo eram um pouco grudadas, e até curtas demais para os padrões aos quais ela estava acostumada. Havia brincos de argola dourados pendurados em suas orelhas, e colares de ouro velho no pescoço, além de uma bandana preta com bordados vermelhos feito a mão na cabeça, ocultando a maior parte do parecia ser uma cabelo preto e cacheado. Ele não parecia o tipo de rapaz que freqüentava a faculdade, nem mesmo as faculdades mais estranhas como a de artes cênicas, ou artes plásticas. Não, ele parecia um personagem de filme de época, o cara que dança na praça tocando uma flauta, um tambor, uma gaita, ou algo do tipo.

Seus olhos eram como um par de quartzos negros eram pontudos sem ser polidos, profundos e exuberantes e duros como a própria pedra, fixos nela com receio e uma pitada de ódio acumulado. A garota recuou, sem perceber realmente o que fazia. Estava ensopada com a chuva de seu lar e deste, apesar de as gotas serem incapazes de continuarem atingindo-a. Ele parecia tão intrigado a respeito de seus trajes quanto ela a respeito dos dele, e nenhum disse nada enquanto encaravam-se, ele forte e confiante, cheio de rancor; ela encolhida, duvidosa e até mesmo um pouco amedrontada. Depois de poucos mais que dois minutos encarando-se, foi ele que se pronunciou. A voz ainda gutural tinha tanta ameaça quanto da primeira vez que ela a ouviu, e parecia ainda mais intimidadora agora que ela encarava as feições joviais do jovem que assemelhava-se de maneira assustadora aos nômades medievais.

-O que uma branca faz longe de casa?

A pergunta fez com que ela se sentisse ligeiramente ofendida, não que não fosse branca, sabia que era, pálida como um fantasma e com olheiras gigantescas e arroxeadas ao redor dos olhos castanho-mel. Mas o que ela ser ou não ser branca tinha haver com o fato de estar longe de casa? Pensou em uma dezena de respostas mal educadas para dizer, mas não lhe pareceu sensato, portanto, quando começou a abrir a boca para retrucar, mudou de idéia, recuando o corpo e fechando a boca repentinamente.

-Digna demais para responder? – ele falou, um sorriso cafajeste e ofendido surgindo nos lábios escuros. Os dentes eram escurecidos e, um deles, dourado. Levou a mão direita para as costas e, quando esta retornou, havia uma pistola entre os dedos, apontada diretamente para a cabeça dela. – Será que agora vou ouvir sua vozinha aguda?

Os olhos dela alargaram-se instantaneamente, igualmente por medo quanto por surpresa. A pistola que lhe era apontada era extremamente rústica e antiquada, remontando o período renascentista. Feita de madeira e de ferro, era movida a pólvora e usava balas gigantescas e pesadas. Mas, apesar de agora ele parecer um personagem de um filme em sépia, sua expressão não continha um pingo de brincadeira, era dura, séria e com um “que” de descontrole.

-O...olha aqui! – ela começou, tentando recuperar a postura e mostrar que não sentia medo, mesmo que o fizesse. Mas não teve tempo de começar seu teatro sem ensaio, o som de folhas sendo afastadas próximo fez com que os dois, sobressaltados, olhassem para o lado, o rapaz em um dilema cruel: não sabia se continuava a mirar nela, ou mudava o alvo de sua pistola para aquele que se aproximava.

Dentre um grupo de árvores e arbustos surgiu um rapaz um pouco mais novo que ele, com roupas extremamente parecidas. Sua camisa era vinho e a calça branca, não trazia nenhum lenço em sua cabeça, mas um em seu pescoço e tinha os pés descalços, ao contrário do outro que usava botas gastas e velhas. Quando o rapaz que havia imobilizado-a notou quem se aproximava, voltou a encarar a adolescentes molhada a sua frente. “Ótimo...” pensou, com uma careta se formando “são amigos.”

-Olha, uma branquela. – o mais novo disse, com um risinho indecente.

O destaque diante da ausência de pigmentação em sua pele estava começando a aborrecê-la. E daí se era branca como um fantasma? Existem muitas pessoas que também são assim, existem pessoas até mesmo piores do que ela, e disso tinha certeza. Seu sangue estava fervendo cuidadosamente, até chegar ao ápice da estupidez adolescente e, cega de frustração, ignorou completamente a pistola ainda voltada para o seu rosto.

-Qual é o problema de vocês, seus ultrapassados? Preconceito é ridículo, além de moralmente condenável! Ficaram presos na época dos seus avós, é? Viados!

Sua voz saiu alta, como um grito solitário em um abismo vazio. Sua voz se perdera entre as árvores, que funcionavam como um isolante sonoro, mas os rapazes diante dela ouviram muito bem as ofensas declamadas em uma voz realmente aguda, dançando em um sotaque desconhecido. O peito subia e descia pois agora estava ofegante, falara tudo depressa demais, esquecendo-se de respirar. O coração acelerado quase parou quando ela os pares de olhos que a encaravam. Um par, o do mais velho, eram quartzos congelados e furiosos, enquanto o do outro encontravam-se pontiagudos e ameaçadores. Estava mais pálida que o normal, o sangue fugia-lhe do rosto e deixava suas pernas bambas. O “clic” da pistola sendo preparada ecoou entre as árvores, fazendo alguns pássaros saírem de seus esconderijos.



-Para minha fã especial, que cuida de me perturbar diariamente, mas a quem eu amo tanto. Mande-me suas obras. Esse post é pra você, Tatii =3

-parece que ainda terão várias partes, aguardem.

-meu nome não é Níh;

1 comentários:

Camila disse...

*tirinha em progresso...83*
mto booom...*-*

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